Coscorões
Também conhecido por: Filhoses alentejanas · Coscoréis
Fitas de massa fritas até estalarem, polvilhadas de açúcar e canela ou regadas de mel.
- Origem
- Doce de raízes medievais, ligado às tradições de fritura ibéricas de influência árabe
- Região
- Alentejo
- Época
- Natal
Os coscorões são finas tiras de massa, retalhadas e abertas em laços, atiradas ao azeite a ferver até ganharem um tom dourado e uma fragilidade de vidro. Quentes ainda, vão a uma cama de açúcar com canela ou a uma calda de mel, e é dali que sobem ao cimo das travessas de Natal por todo o Alentejo.
É doçaria de casa e de tacho fundo, não de pastelaria. Faz-se em grandes fornadas nas vésperas, com a cozinha cheia de fumo doce e o chão semeado de açúcar. Cada folha sai irregular, com bordos enrolados e bolhas, porque a mão de quem estica a massa nunca é igual à do vizinho.
No Alentejo aparecem ao lado das filhoses e das azevias, mas distinguem-se pela leveza quebradiça: mordem-se com um estalido seco, não com a maciez fofa dos primos.
- Farinha de trigo
- Ovos
- Azeite (ou banha)
- Aguardente
- Raspa de limão e laranja
- Açúcar
- Canela
- Mel (na variante com calda)
Estaladiços e quase oco-leves, partem-se com um estalo seco e desfazem-se na boca. O açúcar com canela traz calor e doçura discreta; a versão de mel é mais densa e pegajosa. Por baixo, o aroma cítrico e o travo de aguardente cortam a gordura e deixam a massa fresca e nada enjoativa.
A divisão clássica é entre os de açúcar e canela e os de calda de mel, mais húmidos. Há quem os faça ao forno, numa versão mais leve e menos gordurosa, e o feitio varia: tiras lisas, laços, ou retângulos com talhos no meio. Pela região mudam o nome e a mão — coscoréis, filhoses — mas o gesto é o mesmo.
São doce de cozinha de casa, mais do que de pastelaria, e a melhor versão é quase sempre a feita em família na quadra natalícia. Procure-os em mercados e feiras de Natal do Alentejo, em casas de doçaria regional e em algumas pastelarias tradicionais do interior, onde aparecem em montes generosos por dezembro.
Pedem um cálice de vinho generoso — moscatel, um licoroso do Alentejo — ou uma aguardente velha. Ao pequeno-almoço de Natal, acompanham bem um café cheio ou um chá.
Os coscorões contam-se entre os fritos mais antigos da doçaria portuguesa, anteriores ao requinte dos conventos. A técnica — esticar massa de farinha, ovos e gordura e fritá-la em azeite, perfumada com canela e citrinos — costuma associar-se às tradições da Península sob domínio árabe, quando se firmou o hábito de fritar doces em azeite e temperá-los com especiarias do Oriente; há ainda quem os ligue à difusão de fritos doces pela Europa medieval. Pela sua resistência, eram um doce que viajava bem e se guardava dias, qualidade valiosa numa terra de grandes distâncias.
No Alentejo fixaram-se como doce de festa religiosa, sobretudo do Natal, mas também da Páscoa e do Carnaval. Aparecem também noutras regiões do interior, como a Beira Baixa e Trás-os-Montes. Passaram de avó para neta como receita de cabeça, medida aos punhados e ao sentir da massa, e é por isso que sobrevivem mais nas cozinhas familiares do que nas montras.
Fontes: vortexmag.net · docesconventuais.wordpress.com · outsider.pt · mulherportuguesa.com · diariodistrito.sapo.pt