Nº 040
Coscorões
Fritos · Alentejo

Coscorões

Também conhecido por: Filhoses alentejanas · Coscoréis

Fitas de massa fritas até estalarem, polvilhadas de açúcar e canela ou regadas de mel.

Origem
Doce de raízes medievais, ligado às tradições de fritura ibéricas de influência árabe
Região
Alentejo
Época
Natal
Doçura
Riqueza
Dificuldade

Os coscorões são finas tiras de massa, retalhadas e abertas em laços, atiradas ao azeite a ferver até ganharem um tom dourado e uma fragilidade de vidro. Quentes ainda, vão a uma cama de açúcar com canela ou a uma calda de mel, e é dali que sobem ao cimo das travessas de Natal por todo o Alentejo.

É doçaria de casa e de tacho fundo, não de pastelaria. Faz-se em grandes fornadas nas vésperas, com a cozinha cheia de fumo doce e o chão semeado de açúcar. Cada folha sai irregular, com bordos enrolados e bolhas, porque a mão de quem estica a massa nunca é igual à do vizinho.

No Alentejo aparecem ao lado das filhoses e das azevias, mas distinguem-se pela leveza quebradiça: mordem-se com um estalido seco, não com a maciez fofa dos primos.

Ingredientes
  • Farinha de trigo
  • Ovos
  • Azeite (ou banha)
  • Aguardente
  • Raspa de limão e laranja
  • Açúcar
  • Canela
  • Mel (na variante com calda)
Sabor & textura

Estaladiços e quase oco-leves, partem-se com um estalo seco e desfazem-se na boca. O açúcar com canela traz calor e doçura discreta; a versão de mel é mais densa e pegajosa. Por baixo, o aroma cítrico e o travo de aguardente cortam a gordura e deixam a massa fresca e nada enjoativa.

Variações

A divisão clássica é entre os de açúcar e canela e os de calda de mel, mais húmidos. Há quem os faça ao forno, numa versão mais leve e menos gordurosa, e o feitio varia: tiras lisas, laços, ou retângulos com talhos no meio. Pela região mudam o nome e a mão — coscoréis, filhoses — mas o gesto é o mesmo.

Onde provar

São doce de cozinha de casa, mais do que de pastelaria, e a melhor versão é quase sempre a feita em família na quadra natalícia. Procure-os em mercados e feiras de Natal do Alentejo, em casas de doçaria regional e em algumas pastelarias tradicionais do interior, onde aparecem em montes generosos por dezembro.

Acompanha bem com

Pedem um cálice de vinho generoso — moscatel, um licoroso do Alentejo — ou uma aguardente velha. Ao pequeno-almoço de Natal, acompanham bem um café cheio ou um chá.

História

Os coscorões contam-se entre os fritos mais antigos da doçaria portuguesa, anteriores ao requinte dos conventos. A técnica — esticar massa de farinha, ovos e gordura e fritá-la em azeite, perfumada com canela e citrinos — costuma associar-se às tradições da Península sob domínio árabe, quando se firmou o hábito de fritar doces em azeite e temperá-los com especiarias do Oriente; há ainda quem os ligue à difusão de fritos doces pela Europa medieval. Pela sua resistência, eram um doce que viajava bem e se guardava dias, qualidade valiosa numa terra de grandes distâncias.

No Alentejo fixaram-se como doce de festa religiosa, sobretudo do Natal, mas também da Páscoa e do Carnaval. Aparecem também noutras regiões do interior, como a Beira Baixa e Trás-os-Montes. Passaram de avó para neta como receita de cabeça, medida aos punhados e ao sentir da massa, e é por isso que sobrevivem mais nas cozinhas familiares do que nas montras.

Fontes: vortexmag.net · docesconventuais.wordpress.com · outsider.pt · mulherportuguesa.com · diariodistrito.sapo.pt