A história da doçaria portuguesa
Açúcar das ilhas, gemas dos conventos e séculos de devoção doce. A história de como Portugal se tornou uma nação de pastéis.
Açúcar, Madeira e a expansão marítima
A doçaria portuguesa nasce, em boa parte, do açúcar. Antes dos Descobrimentos, adoçava-se sobretudo com mel, e o açúcar era um luxo raro e caríssimo que chegava por intermédio do comércio com o Oriente. Tudo muda no século XV, quando a colonização da ilha da Madeira, a partir de 1420, transforma o arquipélago numa das primeiras grandes regiões produtoras de cana-de-açúcar do Atlântico.
Ao longo do século XV e início do XVI, o «ouro branco» da Madeira abastece os mercados europeus e torna o açúcar progressivamente mais acessível dentro do próprio reino. A experiência madeirense é depois transferida para outras paragens do império atlântico, sobretudo para o Brasil, cuja produção viria a ofuscar a da ilha.
Esta abundância de açúcar, combinada com as especiarias trazidas pela Carreira da Índia — canela, cravo-da-índia, gengibre — deu aos conventos e às cozinhas portuguesas a matéria-prima de que precisavam. Sem o açúcar da expansão marítima, a grande doçaria conventual que se segue simplesmente não teria sido possível.
A herança mourisca: amêndoa, figo e alfarroba
Antes mesmo do açúcar atlântico, o sul de Portugal já tinha uma profunda cultura do doce, herdada de séculos de presença islâmica. Os árabes do Norte de África deixaram no Algarve um legado de sabores que ainda hoje o define: o mel, os citrinos, a canela e, sobretudo, os frutos secos e os frutos secos da terra.
A amendoeira, a figueira e a alfarrobeira tornaram-se símbolos da paisagem e da despensa algarvias. Da amêndoa fazem-se massas finíssimas moldadas em formas de fruta e animais — o «doce fino» — técnica de clara raiz norte-africana. Do figo seco e da alfarroba nascem doces densos e perfumados, muito anteriores à abundância de açúcar.
Quando, séculos mais tarde, esta tradição se cruzou com a doçaria conventual de ovos e açúcar, produziu alguns dos doces mais célebres do sul, como o Morgado, com a sua massa de amêndoa, e o Dom Rodrigo, de fios de ovos e amêndoa, ambos com origem nos conventos do Algarve. A herança árabe é, assim, uma das raízes mais antigas e fundas da doçaria portuguesa.
Os conventos e o segredo das gemas
É nos conventos e mosteiros, sobretudo entre os séculos XVI e XVIII, que a doçaria portuguesa atinge o seu apogeu. Com açúcar agora abundante e com tempo, paciência e mão de obra dedicada, freiras e monges aperfeiçoaram centenas de receitas que combinavam açúcar com um ingrediente que tinham em excesso: as gemas de ovo.
A explicação está num curioso problema doméstico. As claras de ovo tinham muitos usos práticos nos conventos: serviam para engomar os hábitos e as toucas, para clarificar o vinho e até para fixar as folhas de ouro nos retábulos das igrejas. Sobravam assim enormes quantidades de gemas — e Portugal era um dos maiores produtores de ovos da Europa. Em vez de as desperdiçar, as religiosas transformaram-nas, com açúcar, numa infinidade de doces.
Nasceram assim nomes que são poesia e gula ao mesmo tempo: trouxas-de-ovos, papos-de-anjo, barrigas-de-freira, toucinho-do-céu, ovos-moles. Muitos eram preparados para as grandes festas religiosas e ofertados a benfeitores e visitantes ilustres. Cada casa religiosa guardava ciosamente as suas receitas, criando uma extraordinária diversidade de doces conventuais que constitui ainda hoje o coração da doçaria nacional.
1834: as receitas saem dos conventos
Durante séculos, os segredos da doçaria conventual permaneceram fechados atrás dos muros dos mosteiros. Isso muda de forma abrupta com o fim da guerra civil entre liberais e absolutistas. Em 1834, na sequência da vitória liberal, o Estado decreta a extinção das ordens religiosas masculinas e o encerramento dos conventos; os femininos foram desaparecendo gradualmente, à medida que morriam as últimas freiras.
Privados do seu modo de vida, muitos religiosos e, sobretudo, os trabalhadores leigos que conheciam as receitas levaram esse saber para fora dos claustros. Os doces conventuais entraram nas confeitarias, nas pastelarias e nas cozinhas das cidades e vilas, deixando de ser exclusivos das festas religiosas para se tornarem património de todos.
Foi este êxodo do conhecimento que democratizou a doçaria portuguesa. Receitas que antes só se provavam à porta de um convento espalharam-se pelo país, fixaram-se em cada região e passaram a ser feitas comercialmente. Sem 1834, muitos dos doces mais amados de Portugal talvez se tivessem perdido com os conventos que os criaram.
O pastel de nata e a história de Belém
Nenhum doce conta melhor esta passagem do convento para o mundo do que o pastel de nata. A sua origem está ligada ao Mosteiro dos Jerónimos, em Belém, junto ao Tejo, onde se produzia um pastel de creme segundo uma receita antiga e secreta.
Com a extinção das ordens religiosas em 1834 e o encerramento iminente do mosteiro, alguém ligado aos Jerónimos começou a vender os pastéis numa loja anexa a uma refinaria de cana-de-açúcar ali existente, numa tentativa de sobrevivência. O sucesso foi imediato. Em 1837 iniciou-se o fabrico regular dos «Pastéis de Belém» nas instalações junto à refinaria, seguindo a tal receita secreta do mosteiro.
A Antiga Confeitaria de Belém guarda essa receita até hoje, conhecida apenas por um punhado de mestres pasteleiros na chamada «oficina do segredo». O nome «Pastel de Belém» continua a designar apenas os doces feitos naquela casa; em todo o resto do país e do mundo, o mesmo doce conhece-se como «pastel de nata». De humilde sobra conventual passou a ser, talvez, o mais português de todos os pastéis.
Diversidade regional e fama global
Saídos dos conventos, os doces enraizaram-se em cada região e Portugal tornou-se um país de doçarias locais. Aveiro tem os seus ovos-moles, envoltos em hóstia e moldados em formas marinhas; Sintra, as queijadas e os travesseiros; o Alentejo, as suas encharcadas e sericaias; o Norte, o pão de ló de Ovar ou as tigeladas. Cada terra guarda, com orgulho, o seu doce.
Para proteger esta herança, vários doces conquistaram designações de origem e indicação geográfica reconhecidas pela União Europeia. Os Ovos Moles de Aveiro foram, em 2006, o primeiro doce português a obter a Indicação Geográfica Protegida (IGP), garantindo a autenticidade da receita, dos ingredientes e do método artesanal. Outros, como o Pão de Ló de Ovar e o Travesseiro de Sintra, seguiram caminhos semelhantes de certificação e valorização.
Entretanto, o pastel de nata levou a doçaria portuguesa ao mundo. Hoje encontra-se em Lisboa e no Porto, mas também em Londres, Macau, Tóquio ou São Paulo, multiplicado em pastelarias, cafés e cadeias internacionais. O que começou com o açúcar da Madeira e as gemas das freiras é, no século XXI, um dos mais saborosos embaixadores de Portugal — uma história doce que continua a escrever-se.
- Até 1249
Herança árabe no sul
Séculos de presença islâmica no Algarve, terminada com a conquista de 1249, deixam a amêndoa, o figo e a alfarroba como base da doçaria do sul.
- 1420
Colonização da Madeira
Começa o povoamento da ilha da Madeira, que se tornará uma das primeiras grandes regiões produtoras de cana-de-açúcar do Atlântico.
- Séc. XV
O «ouro branco»
O açúcar madeirense abastece os mercados europeus e torna-se progressivamente mais acessível dentro do reino.
- Séc. XVI
Nascem os ovos-moles
No Convento de Jesus, em Aveiro, as freiras criam os ovos-moles, ícone da doçaria conventual nascido do aproveitamento das gemas.
- Séc. XVI-XVIII
Apogeu da doçaria conventual
Conventos e mosteiros aperfeiçoam centenas de receitas de açúcar e gema, guardadas como segredos de cada casa religiosa.
- Séc. XVII-XVIII
Doces do Algarve
Nos conventos algarvios surgem o Dom Rodrigo e o Morgado, unindo a amêndoa moura aos ovos e ao açúcar.
- 1756
Queijadas da Sapa
Funda-se em Sintra uma das mais antigas casas de queijadas ainda em atividade.
- 1820
Revolução Liberal
A Revolução Liberal do Porto abre o processo político que levaria ao fim dos conventos em Portugal.
- 1834
Extinção das ordens religiosas
O Estado liberal decreta a extinção das ordens religiosas e o encerramento dos conventos, libertando os segredos da doçaria.
- 1834
Os primeiros pastéis de Belém
Com os Jerónimos a fechar, alguém ligado ao mosteiro começa a vender pastéis de nata numa loja junto a uma refinaria de açúcar.
- 1837
Antiga Confeitaria de Belém
Inicia-se o fabrico regular dos «Pastéis de Belém», segundo a receita secreta do mosteiro, ainda hoje guardada.
- Séc. XIX-XX
A doçaria entra nas confeitarias
As receitas conventuais espalham-se pelas pastelarias e fixam-se em cada região, fundando as doçarias locais de Portugal.
- 2006
Ovos Moles de Aveiro IGP
Os Ovos Moles de Aveiro tornam-se o primeiro doce português com Indicação Geográfica Protegida da União Europeia.
- Séc. XXI
Fama global do pastel de nata
O pastel de nata conquista o mundo, de Londres a Macau, tornando-se um dos mais saborosos embaixadores de Portugal.