Sericaia
Também conhecido por: Cericá · Sericá
O creme rachado e canelado de Elvas, irmão das ameixas em calda.
- Origem
- Elvas, Alentejo; doçaria conventual de raiz quinhentista
- Região
- Elvas
- Época
- Todo o ano
A sericaia é o doce-bandeira de Elvas: um creme aveludado de ovos, leite e farinha, perfumado com casca de limão e muita canela, cozido num prato de barro até a superfície estalar em fendas douradas. Não é bem um pudim nem um leite-creme — fica algo entre os dois, fofo por dentro e levemente firme à colher.
Serve-se quase sempre fria ou morna, em fatias largas, polvilhada de canela e — esta é a regra de ouro alentejana — acompanhada de ameixas de Elvas em calda. A combinação do creme suave com a fruta densa e açucarada é o que faz da sericaia um clássico das mesas de festa do Alto Alentejo.
É um doce de poucos ingredientes e gesto certeiro: bate-se as claras em castelo e envolvem-se na massa para lhe dar a leveza que a distingue de qualquer outro creme de ovos.
- Ovos
- Leite
- Açúcar
- Farinha
- Canela (em pau e em pó)
- Casca de limão
- Pitada de sal
Macia, cremosa e reconfortante, com o doce moderado das gemas a casar com o calor da canela e a frescura do limão. A textura é o seu encanto: fofa graças às claras batidas, com uma crosta fina e estalada que contrasta com o interior sedoso.
As diferenças estão sobretudo na textura — umas mais firmes e altas, outras quase líquidas no centro — e na intensidade de canela. Há quem a sirva morna, quem a prefira fria; mas a presença das ameixas de Elvas em calda ao lado é praticamente inegociável.
Encontra-se nas pastelarias e restaurantes tradicionais de Elvas e de todo o Alto Alentejo, frequentemente apresentada em pratos de barro individuais. A versão genuína vem sempre com a canela bem visível e as ameixas de Elvas em calda a fazer companhia.
Ameixas de Elvas em calda são o par obrigatório. Como bebida, um vinho doce ou licoroso do Alentejo, ou simplesmente um café para cortar o doce.
A sericaia traz no nome a sua provável viagem: o termo costuma ligar-se ao malaio-indonésio serikaya (ou srikaya), um doce de ovos e leite do Sudeste Asiático. A tradição liga a sua chegada a Portugal ao séc. XVI, no rasto da presença portuguesa em Malaca e em Goa, e atribui a introdução da receita a D. Constantino de Bragança, vice-rei da Índia. As datas e os pormenores variam consoante a fonte e devem ler-se como tradição, não como facto documentado.
A origem é, aliás, disputada entre Vila Viçosa — onde se aponta o Convento das Chagas — e Elvas, cujas casas religiosas (entre elas o Convento de Santa Clara e o de Nossa Senhora da Conceição) reivindicam a receita; daí também a rivalidade entre os nomes "sericaia" e "sericá". Foi nos conventos do Alto Alentejo que o doce ganhou a sua chave portuguesa, com a canela e o limão. Hoje a sericaia figura no inventário dos Produtos Tradicionais Portugueses, mas não tem designação europeia protegida (DOP/IGP/ETG) — é a Ameixa d'Elvas, que a acompanha, que possui o estatuto DOP.
Fontes: tradicional.dgadr.gov.pt · tradicional.dgadr.gov.pt · en.wikipedia.org · memoriamedia.net · radiocampanario.com