Queijo de Figo
Também conhecido por: Queijo de Maio · Queijo de figo e amêndoa
Não tem queijo: é figo seco e amêndoa, prensados numa roda escura.
- Origem
- Algarve, doçaria popular ligada à tradição do figo e da amêndoa; registada por autores oitocentistas
- Região
- Algarve
- Época
- Todo o ano (tradicionalmente no Primeiro de Maio)
O queijo de figo não engana só pelo nome. Tem o formato e o gesto de um queijo de roda, mas dentro não há leite nenhum: é uma massa densa e escura de figo seco e amêndoa, cortada às fatias finas como um queijo curado.
É um doce sem forno, feito de paciência. Figos secos abertos e amêndoas peladas dispõem-se em camadas dentro de uma forma forrada, regam-se com aguardente, prensam-se com um peso por cima e deixam-se curar durante semanas ou meses, até ganharem corpo. Quando se corta, vê-se o miolo malhado de branco sobre o castanho profundo do figo.
É um dos rostos mais antigos da doçaria algarvia, daquela que vive da amendoeira e da figueira que cobrem o barrocal — sem manteiga, sem ovos, sem açúcar refinado, apenas o doce que a própria fruta seca guarda.
- Figo seco
- Amêndoa pelada
- Aguardente
- Canela (opcional)
- Erva-doce / funcho (opcional)
- Casca de limão (opcional)
Intensamente doce de forma natural, com a doçura concentrada do figo seco temperada pela amargura limpa da amêndoa e por um travo quente de aguardente. A textura é densa e mastigável, quase pegajosa, com o estalido das amêndoas inteiras a quebrar a massa macia. Aromas de figo curado, especiarias e fruta-de-sol.
Faz-se sobretudo em rodas pequenas (cerca de 10 cm), mas a massa molda-se em muitas formas: barquinhos, mapas do Algarve, peixes ou pequenos braseiros. Algumas casas perfumam com canela, erva-doce, limão ou cacau; outras moem o figo mais fino para uma pasta lisa, ou deixam-no mais rústico, com pedaços visíveis. A amêndoa pode ir inteira, laminada ou picada.
Procure-o nas pastelarias e mercearias tradicionais do Algarve, nas confeitarias de Tavira, Loulé, Faro e Silves, e nas feiras de produtos regionais. As versões artesanais, vendidas em rodas firmes que se cortam à fatia, são bem mais saborosas do que as embalagens industriais lisas e demasiado doces.
Pede um copo de aguardente de medronho, de figo ou um vinho do Algarve generoso; acompanha bem queijo curado de verdade, frutos secos e um café forte no fim da refeição.
O queijo de figo nasce da abundância: o Algarve sempre foi terra de figueiras e amendoeiras, e a doçaria do sul ficou marcada pela tríade figo-amêndoa-alfarroba. Não é um doce de convento mas de casa e de campo, popular na serra e no barrocal, onde aproveitar o figo seco do verão era questão de bom senso doméstico. Autores que escreveram sobre o Algarve, como João Baptista da Silva Lopes (século XIX) e, mais tarde, Thomaz Cabreira, registam estas conservas de figo e amêndoa, considerando-as de origem popular e ligadas à produção tradicional do figo na região.
O nome alternativo, queijo de Maio, denuncia o seu papel festivo: era doce do Primeiro de Maio, levado no farnel das merendas que as famílias comiam ao ar livre nos campos. Por se conservar bem, fazia-se com antecedência — por vezes ainda no outono — para chegar curado à festa.
Fontes: tradicional.dgadr.gov.pt · gastronomias.com